Enrique Vega Leon, membro do Grupo de Jovens Tuneleiros do CBT (CBT-Young Members) realizou duas palestras no auditório da Faculdade de Engenharia da Fundação Santo André, na cidade de Santo André (SP) durante a XVI Semana das Engenharias promovida pela instituição. As palestras, proferidas nos dias 18 e 20 de outubro, abordaram os fundamentos das construções de túneis e os usos do concreto projetado.

No dia 18 de julho, cerca de 65 pessoas participaram do evento que abordou "Concreto Projetado: compatibilidade cimento/acelerador, microestrutura e propriedades mecânicas" no Instituto de Engenharia. Idealizado pelo grupo de jovens tuneleiros do CBT (CBT Young Members) com apoio do IE, o evento contou com as palestras do engenheiro e professor Antonio Domingues de Figueiredo e do químico Renan Picolo. “A abordagem desse tema é importante principalmente porque é algo pouco estudado durante a graduação em engenharia civil”, comenta o vice-presidente do CBTYM, Alex Nowak La Flor. “Neste sentido, as palestras foram muito esclarecedoras”.

As palestras

O primeiro convidado a palestrar foi Antonio Figueiredo. O professor da USP abordou a avaliação de compatibilidade de cimento aditivo. “É fundamental que o concreto projetado para revestimento de túneis tenha elevada resistência nas primeiras idades”, explicou Figueiredo. “Isso se obtém com o uso de aditivos aceleradores. Há vários tipos de aditivos aceleradores, no entanto, a compatibilidade deles com o cimento não é um sistema fácil de analisar”. 

Para embasar a ideia, Figueiredo expôs dois métodos. “O primeiro enfoque é o que eu chamo de antigo, aquilo que a academia começou a desenvolver há muitos anos, mas que, infelizmente, ainda não é prática do mercado utilizar. O outro é o que temos de visão de futuro, que foi originado do trabalho do Renan”.

Em seguida, foi a vez do químico e doutor em engenharia civil, Renan Picolo, abordar a aplicação do concreto projetado especificamente para revestimento de túneis e a estabilização de escavação em maciços. Na foto à esquerda, da esquerda para a direita, os palestrantes Renan Picolo e Antonio Figueiredo, Alex Nowak La Flor e Fernando Abreu, vice-presidente e presidente do CBT. 

Picolo também falou sobre como todos os processos químicos e físicos que envolvem a aplicação influenciam a evolução de resistência mecânica do revestimento aplicado. 

“Existe uma grande falta de conhecimento nessa área”, esclareceu. “A interface entre química e engenharia civil não é muito fácil de se estabelecer. Então é bastante importante que se tenha um conhecimento inicial para evitar desperdício na hora da aplicação do concreto e para aumentar a segurança da obra. Toda a questão inicial da avaliação de compatibilidade entre materiais interfere na durabilidade total do revestimento. Se soubermos quimicamente o que acontece, conseguimos estabilizar o processo desde a inicialização até a vida útil total do elemento”.

De acordo com Antonio Figueiredo, “o objetivo das palestras foi mostrar que temos hoje uma capacitação técnico-científica muito mais robusta, além afirmar que é possível a transferência dessa tecnologia para o mercado de forma a conseguir a otimização das práticas atuais – ou seja, fazer com que o mercado evite trabalhar com ‘caixas pretas’, com dosagens pré-estabelecidas, para que o produto tenha uma maior garantia e também que os custos da obra sejam reduzidos”, comentou o professor Figueiredo.

Público jovem

Para Renan Picolo, investir na educação de jovens engenheiros é o que garante que as boas práticas da engenharia sejam de fato aplicadas. “Como somos mais novos, também estamos mais abertos a escutar e receber informações. É importante ajudar estudantes que estão começando nessa área, os futuros profissionais, para estabelecer as melhores práticas, ensinar o que é mais adequado para seguir em frente”.

Figueiredo também concorda que disseminar conhecimento a jovens engenheiros é a aposta certa para garantir um setor mais bem desenvolvido. “É fantástico falar com os engenheiros mais jovens. É um público mais aberto às inovações tecnológicas. Sempre frisamos que há ainda muito a pesquisar e a desenvolver e o jovem tem afinidade com essa ideia. É o que me anima, o que incentiva a minha carreira como professor”. 

Neste sentido, de acordo com Alex Nowak, o CBT Young Members está cumprindo com seu objetivo. “A missão do Young Members é justamente essa: trazer e discutir temas de relevância para agregar bons conhecimentos à parcela mais jovem da comunidade técnica”. 

Acesse aqui a galeria de fotos do evento.

Um grupo de cerca de 15 jovens tuneleiros visitou, no dia 23 de junho, as obras da extensão da Linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo. Os jovens tiveram a oportunidade de conhecer, na prática, aspectos construtivos de túneis executados pela metodologia convencional – NATM. 

 

Após uma breve explicação sobre os conceitos e técnicas utilizadas na construção dos túneis, o grupo foi a campo observar a prática dos conceitos apresentados. A visita incluiu uma breve passagem pelo trecho da futura estação, construída pelo método cut-and-cover (ou vala a céu aberto), com a utilização de paredes diafragma. Em seguida, os visitantes desceram através do poço de acesso até os túneis – principal e de acesso – ainda em construção.

 

“Pudemos observar em detalhes os sistemas de rebaixamento do lençol freático, de ventilação, de monitoramento, os tratamentos de teto e de frente, o revestimento em concreto projetado”, lembra Fernando Abreu, presidente do CBT Young Members que participou da visita técnica. “Para aqueles que puderam ir, foi uma ótima oportunidade. Se há quem diga que uma imagem vale mais que mil palavras, uma visita vale mais que mil imagens. Foi uma experiência única!”.

 

A visita faz parte do programa de visitas monitoradas oferecido pelo Metrô de São Paulo.

 

Acesse aqui o álbum com fotos da visita.

O grupo de jovens tuneleiros (Young Members) surgiu para eliminar, ou pelo menos diminuir, a lacuna de conhecimento que existe entre os engenheiros recém-formados e os profissionais experientes do mercado de túneis. “O objetivo do grupo é unir as gerações e facilitar a troca de conhecimento técnico, garantindo o progresso da Engenharia Tuneleira”, afirma Marlísio Cecílio, ex-presidente do CBT Young Members. “Infelizmente a nossa profissão não se aprende na faculdade. E mesmo a especialização não é suficiente. O conhecimento mais profundo é adquirido no dia a dia de trabalho, passado de profissional para profissional”.

Grupos de jovens tuneleiros já existiam na Austrália e na Inglaterra, mas não eram oficialmente reconhecidos pela ITA – International Tunnelling and Underground Space Association. Durante o World Tunnel Congress 2014, realizado no Brasil, a entidade oficializou a criação do Young Members como um dos grupos de trabalho da ITA, legitimando então os grupos já existentes em algumas member nations. Neste momento foi criado o Grupo de Jovens Tuneleiros no Brasil, o CBT Young Members, que já vinha sendo pensado desde o congresso anterior, no WTC 2013 de Genebra.

O primeiro desafio do grupo foi a conquista de membros. A ideia, então, foi dar início às atividades do CBT Young Members com palestras ministradas por jovens tuneleiros – que não fossem, no entanto, direcionadas apenas aos jovens ou recém-formados, com temas muito básicos. “Eram palestras ministradas por jovens, mas com temas relevantes para toda a comunidade”, explica o ex-presidente. “O tema sempre envolvia questões atuais da Engenharia Tuneleira, conteúdos relevantes que acrescentassem algo tanto para os jovens quanto para os mais experientes. Uma palestra de alto nível como as que sempre foram organizadas pelo CBT, a única diferença era que a organização e o palestrante eram jovens”.

Com auditórios sempre lotados, o Young Members começou gradativamente a conquistar novos membros, mas ainda estava bastante limitado a São Paulo.

Surgiu assim outra inciativa importante. O então presidente do Young Members foi a universidades da Região Sul do país para ministrar palestras sobre túneis para alunos dos cursos de graduação. “Como é um assunto muito pouco abordado durante a graduação em Engenharia Civil, fui falar aos jovens o que são túneis, quais as diferentes metodologias construtivas empregadas, entre outros assuntos que despertassem interesse”, conta Marlísio.

A ideia surgiu porque, quando ainda era estudante de graduação, foi uma palestra como esta que despertou o interesse de Marlísio para as obras subterrâneas. “Eu não sabia nada de túneis e o Engenheiro Leonardo Redaelli, grande tuneleiro já falecido, ministrou uma palestra sobre o assunto na faculdade onde eu estudava. Imediatamente pensei ‘é com isso que eu quero trabalhar’, e foi aí que tudo começou”, lembra.

A série de palestras na Região Sul surtiu efeitos positivos e o Young Members passou a ter força além do eixo São Paulo – Rio de Janeiro. Em um desses encontros, Marlísio conheceu Alex Nowak La Flor, hoje vice-presidente do CBT Young Members. “Vi em Alex o mesmo entusiasmo em relação aos túneis que eu tinha quando era estudante. E hoje ele está tocando o CBTYM junto com o Fernando Abreu, presidente do grupo”.

O grupo também passou a organizar visitas técnicas a obras de túneis, além de promover sorteios de livros, inscrições em eventos e outros brindes.

“Uma grande vitória do grupo foi conseguir uma sessão dedicada exclusivamente ao Young Members no 4º CBT – Congresso Brasileiro de Túneis, realizado em São Paulo em 2017”, ressalta Marlísio Cecílio. “A sessão era aberta a todo o público do evento, claro. Mas as apresentações foram feitas apenas por jovens. E a comunidade marcou presença, interessada em conhecer a produção dos jovens tuneleiros”.

O Prêmio Figueiredo Ferraz foi outra conquista do grupo, juntamente com o CBT. O objetivo é valorizar e destacar o melhor trabalho de iniciação científica ou de conclusão de curso. “É também uma forma de estimular os estudantes a optar pelo tema de escavações subterrâneas para o TCC e, assim, atraí-los para nosso setor”, destaca o ex-presidente do grupo. Confira aqui o regulamento do Prêmio

A importância dos eventos e grupos técnicos

Na palestra que teve durante a graduação, Marlísio ouviu sobre o 1º Congresso Brasileiro de Túneis, que aconteceria em São Paulo em 2004. “Embora não tivesse nenhuma publicação, participei do evento apenas como ouvinte”, lembra Cecílio. “Ali comecei a ter contato com a comunidade tuneleira. Passei a conhecer profissionais respeitados da área. Lembro-me muito bem de ter conhecido o Akira Koshima, ex-presidente do CBT e então presidente do Congresso, e o Hugo Rocha, também ex-presidente do CBT que, na ocasião, apresentou diversos trabalhos sobre a Linha 4 do Metrô de São Paulo. Aquele congresso foi demais! Uma oportunidade única de networking.”

Tendo em vista a importância daquele evento – e que resultou na participação em tantos outros – Marlísio dá uma dica àqueles que têm interesse na área: “Participem de todos os eventos, mesmo que não tenham um artigo para apresentar. Participem como ouvintes. Mas, sempre que possível, apresentem suas ideias, seus trabalhos. Assim, naturalmente será notado pela comunidade. A dedicação, claro, é fundamental. Mas é preciso também estar presente, fazer contatos. Nossa área é restrita e conhecer a comunidade é importantíssimo. Por isso a relevância de fazer parte de grupos como o Young Members, o CBT e a ABMS”.

Para Marlísio, a nova diretoria do Grupo de Jovens Tuneleiros tem uma árdua tarefa pela frente: “Estamos enfrentando um momento difícil na Engenharia brasileira. Isso influencia também a participação da comunidade nos eventos. Mas é agora que precisamos mais da atuação de grupos como o CBTYM. Temos que unir forças para enfrentar a crise!”.

Marlísio Cecílio

Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina, Marlísio obteve seu Mestrado em Túneis pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Ainda durante o Mestrado, abriu mão da bolsa de estudos que tinha para trabalhar na Figueiredo Ferraz. “Meu primeiro tutor foi o Engenheiro Pedro França, com quem aprendi muito”, lembra.

Em seguida, foi para a Bureau de Projetos, empresa em que atua até hoje. “Ali tive o meu segundo tutor, Arsenio Negro Jr, com quem ainda aprendo diariamente”.

Desde o início de sua carreira profissional, Marlísio produz artigos para congressos nacionais e internacionais e participa dos eventos. Essa participação ativa o levou a ser convidado para a criação e presidência do CBT Young Members e para integrar a Comissão Organizadora do WTC 2014.

Em 2017, participou da organização do 4º Congresso Brasileiro de Túneis, que ocorreu conjuntamente com o 9th International Symposium on Geothecnical Aspects of Underground Construction in Soft Ground, no qual atuou como vice-presidente do Simpósio e Comitê Científico.